Um pequeno destacamento de soldados deixou o portão na direção de sir Gervais e sua pequena companhia. Trajavam túnicas brancas com detalhes em bronze, além de altos elmos enegrecidos. As túnicas, que eram atadas ao corpo por uma cinta de couro deixavam transparecer nos flancos a cobertura de couro natural aos soldados de posto inferior. As couraças deveriam ser quentes e sufocantes no verão, mas tornavam-se uma ótima vestimenta para o inverno.
A túnica dos soldados era idêntica aquela que fora encontrada ao lado do corpo que agora carregaram sobre a mula. O líder do destacamento fez questão de averiguar a identidade do homem assassinado antes de outras atitudes. Acenando com a cabeça confirmou os temores dos cavaleiros.
Um pequeno aglomerado de cidadãos seguiu a comitiva conforme ela aproximou-se do portão, e agora insultavam a mulher cativa, atirando-lhe frutos podres e cuspindo contra ela. Eram em sua maioria mascates e camponeses que iam a cidade vender seus ofícios e cultivo, mas uma quantidade similar de crianças e mulheres, desocupados e pedintes que curiosos aproximavam-se da mulher agrilhonada.
Ela tinha os olhos fixos nas pessoas, rosnava e gritava para elas, amaldiçoando-os por sua condição. Haviam-lhe posto novamente o manto, mas este estava sujo pela poeira do trote das montarias. O rosto da garota, seus pés e tornozelos estavam também sujos e suas mãos, oprimidas pelas amarras pareciam avermelhadas e feridas.
Os olhos verdes chocaram-se contra os misteriosos olhos castanhos de Nagen por um breve momento, mas ele desviou-se, voltando para sir Gervais que neste momento findava seu acordo com o capitão da guarda. Descendo do cavalo, desamarrou-a e entregou-a ao cavaleiro com a tatuagem.
Este e mais o outro que a aprisionaram, guiados pelo capitão da guarda, adentraram o portão e seguiram por uma viela lateral rumo a um pequeno forte no interior das muralhas. Sir Gervais ergueu o braço para os seus e bradou:
- Daqui seguimos para o nosso destino, companheiros. Deixemos que a justiça se assegure em punir esta assassina.
Dizendo isto, montou novamente e esporeu o cavalo a frente, para uma alameda calçada em pedras que se erguia para a parte mais alta da cidade. Nagen acompanhava-os de perto, com o ouvido atento ao cochichar de Montgomery junto a seu servo:
- Deveríamos apelar para um promotorado público, talvez mesmo uma corte do povo.
- Eu não creio, monsieur. O ocorrido parece-me pouco isolado para tamanha repercussão.
- O que acha você, meu amigo? - disse de súbito voltando-se para Nagen - A assassina deveria ser julgada em público ou acredita que os fatos por si só a condenem?
- Eu acredito, meu senhor - expôs com certo respeito - que um julgamento público seria um ótimo entretenimento para alguns poucos nobres desocupados que não têm mais vigor para gastar suas tardes entre as coxas de suas próprias messalinas.
Aproveitando-se do espanto que causara em seus dois companheiros, avançou:
- Além do que, nem mesmo sabemos da sua culpa. Afinal, quem somos nós para julgar? - disse isto com o olhar fixo no pequeno símbolo que o conde trazia pendurado na lapela da farda.
O conde gaguejou uma resposta, mas foi avidamente interrompido por seu escudeiro:
- Creio que não precisamos de provas além de suas mãos manchadas no sangue do pobre homem.
- E... eu concordo - articulou por fim - mesmo o mais puro eremita perceberia o toque cruel do assassínio em seus dedos e em seus lábios e... - parou desconcertado.
Neste momento a comitiva aproximavasse de uma grande construção em alvenaria, conforme tantas outras que preenchiam a alameda. Possuía um andar superior e pareciam haver cômodos mesmo no sótão, pois pequenas janelas e parapeitos saltavam do telhado. Era cercada por uma muralha em pedra cinzenta de pouco menos de um metro, encimada por pequenas hastes de ferro negro. Ao lado da construção principal podiam-se ver ainda uma casa de banhos e um vasto estábulo. Operários e serviçais caminhavam de um lado a outro, tratando dos animais, erguendo tinas de água quente e transportando sacas repletas de verduras e outros alimentos estocáveis.
Gervais voltou seu cavalo para o fim da comitiva e aproximou-se dos três homens que discutiam. Em seu rosto iluminava-se uma distinta alegria pelo dever cumprido e pelo ego alimentado. Sorrindo para Nagen, chamou-o:
- Meu rapaz, creio que estás exausto de tua viagem. Gostaria que nos acompanhasse como nosso hóspede nesta casa enquanto estivermos em Guardina.
- Obrigado sir, mas - tossiu - mas devo recusar. Tenho meus próprios compromissos a tratar.
- Agracias-nos ao menos com tua companhia nesta noite?
- Ainda assim recuso, meu senhor. Mas prometo-lhe, voltar para visitar-vos dentro dos próximos dias, como forma de agradecer vosso acolhimento.
- Esperemos por isto - disse voltando-se para Montgomery.
- Esperemos - assentiu o condo com a cabeça.
- De qualquer maneira, obrigado - disse Nagen saltando da montaria - sou-lhes muito grato pela vossa hospitalidade.
Despedindo-se com um aperto de mãos, voltou-se para a direção que viera e desceu a alameda caminhando calmamente. Torceu o nariz e recriminou-se pelo papel falso e hipócrita que teve de desempenhar diante da comitiva. Consolava-se ao menos em ter ofendido o conde em seus príncipios distorcidos de justiça e podido despertar a indignação do jovem Fleur.
Uma brisa suave enlaçou-o, forçando-o a apertar ainda mais o colete que lhe cobria o peito. Sentia um certo desconforto mas os pulmões jã não doíam como a dias atrás. A tosse também cessou e Nagen sorriu que ninguém soubesse.
Na rua olhavam-no com desconfiança, conforme ele caminhava com desenvoltura em seus trajes exóticos. A cidade era repleta de homens e mulheres simples, habituados a soldados trajando túnicas e, volta e meia, a uma pequena explosão mágica originária de um embate entre algum feiticeiro e um ser mítico. Estes homens e mulheres que agora o olhavam curiosos trajavam camisões longos com calças, bombachas ou longos vestidos cobertos por um pequeno avental. Vários deles usavam cintas e botas em couro e alguns também usavam um chapéu ou touca.
As crianças, ao invés, usavam gorros de pele e mantas de lã ou pele forrada em sua vasta maioria. Corriam pelas ruas escorregadias branindo espadas de madeira ou empurrando pequenas bexigas cheias de areia que tentavam pôr dentro de buracos no chão.
Para Nagen mesmo as casas, construídas em argamassas e sustentadas por vigas em madeira, eram alienígenas. Havia visto várias destas em seu caminho até Guardina, mas em nenhum outro lugar ela eram tão brancas e grandiosas. Sobre os telhados a oeste, podia ver-se o mar, uma imensa massa d´água cinzenta tocada pelos raios amarelados do sol matinal e uma imensidão de gaivotas que, sobrevoando os portos, emitiam largos trinados de satisfação por tomarem parte de algo tão grandioso.
Nagen estava feliz, sem saber porque, em estar de volta a Guardina, e em poder desfrutar de todas estas novidades. Avistou pouco mais ao longe o forte da muralha e tornou a ficar sério, marchando em passos decididos.